sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Conto: Clamor dos Inocentes (3/3)




No início, uma semana após contratar Billy, eu começava a pensar que ele havia sido um presente dos céus. Um mês depois, eu entendi que não era bem assim. Patrick Hannigan estava desaparecido, e Billy também. Eles simplesmente haviam sumido.
Cheguei a pensar que houvessem matado um ao outro, ou, quem sabe, fugido juntos para alguma outra cidade. Mas a resposta concreta só chegou alguns anos depois.
Primeiro veio a notícia de Patrick, que teve seu corpo encontrado no fundo de um rio. Tinha algumas costelas quebradas, além do maxilar e uma das pernas. A polícia evitou ir atrás dos detalhes, e como ele já não tinha família que se importasse, as coisas ficaram por isso mesmo. Teve um enterro vagabundo onde pouquíssimas pessoas compareceram, e eu era uma delas.
Me sentia culpado, com medo de ter causado a morte de Patrick. Quem poderia imaginar que Billy Jordan iria tão longe por míseros 100 dólares?
Eu, certamente não. Teria oferecido a metade, se isso fizesse alguma diferença.
Entretanto, eu sentia que poderia descobrir a verdade sobre as coisas, cedo ou tarde, mas então, após quase nove meses terem se passado desde o enterro de Patrick, depois de já estar sendo procurado pela polícia em todo estado por diversos assaltos e dois assassinatos, Billy Jordan também morreu.
Aconteceu em Santa Martha, um condomínio de luxo pacato. O corpo de Billy foi encontrado queimado, junto com um carro que o dono havia dado queixa de assalto, há algumas semanas. O fogo havia sido causado por um cigarro, e só não havia acontecido algo mais desastroso e incendiado toda a floresta onde o carro estava – na periferia do condomínio – porque alguns moradores ouviram barulhos de disparos e resolveram investigaram a situação.
Moradores bem intencionados mais um bom tempo e muita água, e então um incêndio pode ser controlado.
A perícia encontrou, dentro do carro quase completamente queimado, alguns quilos de cocaína, uma Colt .45 e, perto dali, em direção ao interior do condomínio, um colar de pérolas arrebentado. Foi concluído que Billy estava sendo assaltado, tentou pegar a arma no banco de trás, e acabou sendo baleado. O cigarro que fumava caiu no próprio corpo e iniciou aquele incêndio.
Mas eu sei que não foi nada disso.
Primeiramente, qual a chance de um ladrão ser assaltado por outro dentro de um dos condomínios mais seguros do estado? Qual a chance de um cara matar o outro e não levar sua arma e seu carro, sendo que a chave estava na ignição?
Não foi isso. Definitivamente, não foi.
Acho que Billy havia seduzido alguma das madames ricaças do Santa Martha, levou-a até seu carro roubado, e então foram trepar em algum lugar, como sempre fazia desde os tempos de colégio. Até que algo deu errado.
Talvez um amigo próximo de Patrick – se ele tivesse algum que se importasse –, ou outra pessoa que Billy possa ter prejudicado, tenha o encontrado e feito justiça com as próprias mãos. Talvez fosse algum traficante ou o marido da madame que ele comia.
A única coisa que sei é que não existe chance nenhuma de Billy Jordan ter sido assassinado por algum motivo casual ou não intencional. Billy é o tipo de cara que, antes mesmo de você terminar de sacar sua arma, ele já te deu ao menos dois motivos para puxar o gatilho.
Olhando para trás, hoje, é quase engraçado relembrar todas essas coisas.
No início, todos chamávamos Bob Miller de covarde, mas a verdade era que ele sempre suportava uma surra cada vez pior sem nunca desistir de revidar, o que, no seu caso, significava fazer denúncias.
Eu era o oposto disso. Eu era o verdadeiro covarde. Nunca consegui falar para ninguém, além dos meus colegas - que já sabiam que aquilo acontecia -, que apanhava praticamente todos os dias. Eu suportava calado, tendo medo de me defender ou pedir por ajuda. Eu escolhi o caminho mais fácil, paguei um cara que cuidou dos meus problemas por mim.
Se eu tivesse tido metade da coragem de Bob, talvez Patrick pudesse estar vivo hoje. Pois é, esta talvez seja a parte mais curiosa de todas, mas eu nunca quis que Patrick morresse, mesmo naquela época. Eu só não queria continuar apanhando.
Assim que Patrick foi dado como desaparecido, Will até ficou feliz. Disse que era um desafeto a menos na nossa lista. Mesmo hoje ele ainda diz, às vezes, que contratar Billy foi a melhor coisa que fizemos.
Eu não penso dessa forma. Não espero que ninguém entenda, mas não há um dia em que eu não sinta meu travesseiro mais pesado, antes de dormir, imaginando o que pode ou não ter acontecido; ou o que eu posso, ou não, ter provocado.

Hoje em dia, quase 20 depois do início dessa história, os cigarros que passei a fumar depois do sumiço de Patrick transformaram meus pulmões em frágeis sacolas plásticas cheias de ar, mas durante as noites mais difíceis, eles são a única coisa que conseguem me fazer adormecer.

                                           FIM DA ÚLTIMA PARTE


11 comentários:

  1. Fiquei um pouco surpresa com o final, no início a história pareceu aquelas típicas histórias de filme Americano mas com o final totalmente inesperado. Você tem bastante talento, espero por mais contos como este, parabéns.

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    1. Hey Maísa. Que bom que gostou. Vou postar mais contos sim. Obrigado por ter lido!

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  2. Nossa, eu não sou chegada a contos assumo, porém este esta muito bem feito, gostei bastante.
    parabéns pelo trabalho.

    Beijos

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  3. Oiee João ^^
    Que final! Bem diferente de tudo o que eu imaginei. Só queria saber o que realmente aconteceu com os dois, você pretende nos contar? hehe'

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    1. Oie Dryh! Estou bastante agradecido e contente que você tenho lido todas as partes do contato! Em relação a pergunta, talvez ela seja revelada em um crossover com outros contos, haha ;)

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  4. Pois é, como disse em uma das partes anteriores, era certo que a ideia não funcionaria. As escolhas trazem consequências que nem sempre as pessoas conseguem lidar, como foi o caso do protagonista. Gostei do desfecho, achei coerente e conclui a contento a jornada do narrador. Abraços!

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    1. Que bom que gostou Bete. Fico feliz que tenha acompanhado todas as partes do conto. No que precisar, conte comigo. Abraço!

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  5. Wowww!
    Um ahazzo! Adorei João!
    Seu estilo de escrita é ótimo! (Please, continue e escrevendo e publicando!
    Mil beijos

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